Stanislav Grof, um dos fundadores da psicologia transpessoal, defende que as suposições e conceitos actuais e básicos da psicologia e da psiquiatria requerem uma revisão radical baseada na investigação intensiva e sistemática dos estados invulgares de consciência.
Em A Psicologia do Futuro, que serve como um sumário introdutório a meio século de carreira, Grof apresenta as contribuições que fez para os campos da psiquiatria e da psicologia - em especial o seu conceito central de experiência holotrópica, em que holotrópico significa "movendo-se em direcção à totalidade" -, desde as primeiras tentativas de proceder a uma cartografia da psique humana mediante psicoterapia com LSD, passando pela prática clínica com pessoas moribundas e pelo seu trabalho com respiração holotrópica, técnica terapêutica que desenvolveu, até às suas reflexões mais recentes sobre a consciência e as perspectivas para lidarmos com uma crise planetária crescente.
Excerto da obra
Em estados holotrópicos, a consciência é alterada qualitativamente de uma forma muito profunda e fundamental, mas não é brutalmente danificada como nas condições que têm causas orgânicas. Tipicamente, permanecemos completamente orientados em termos de espaço e de tempo e não perdemos totalmente o contacto com a realidade quotidiana. Ao mesmo tempo, de uma forma que pode ser muito intensa e até avassaladora, o nosso campo de consciência é invadido por conteúdos de outras dimensões da existência. Assim, experienciamos simultaneamente duas realidades.
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Várias características importantes da terceira matriz distinguem-na da constelação sem-saída descrita anteriormente. Aqui a situação é desafiadora e difícil, mas não parece desesperada e não nos sentimos desamparados. Estamos activamente envolvidos numa luta tenaz e temos a sensação de que o sofrimento tem uma direcção, um objectivo e um significado definidos. Em termos religiosos, esta situação relaciona-se mais com o conceito de purgatório do que com o inferno.
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Embora muitos profissionais advoguem uma abordagem ecléctica que reconheça uma interacção complexa entre Natureza e cultura, ou biologia e psicologia, a abordagem biológica domina o pensamento nos círculos académicos e na prática psiquiátrica rotineira quotidiana. Como resultado do seu complexo desenvolvimento histórico, a psiquiatria estabeleceu-se enquanto subespecialidade da medicina, o que lhe confere uma forte propensão biológica. O pensamento conceptual convencional na psiquiatria, a abordagem a indivíduos com distúrbios emocionais e problemas de comportamento, a estratégia de investigação, instrução básica e formação, e medidas forenses, todos estes são dominados pelo modelo médico.
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Muitas das experiências acima descritas foram relatadas por místicos, santos, profetas e mestres espirituais de todas as épocas. É absurdo, como já vimos, atribuir todas estas experiências a algum processo patológico desconhecido no cérebro ou noutra parte do corpo, o que é uma prática comum na psiquiatria moderna. Naturalmente, isto levanta a questão da relação entre psicose e psicótico, como é comum na psiquiatria académica. Como veremos, as observações e experiências obtidas em estados holotrópicos sugerem que o conceito de psicose tem de ser radicalmente redefinido.
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A incapacidade de reconhecer o potencial curativo de tais estados extremos reflecte o modelo conceptual restrito da psiquiatria ocidental que se limita à biografia pós-natal e ao inconsciente individual. Experiências para as quais este modelo restrito não tem uma explicação lógica são então atribuídas a um processo patológico de origem desconhecida. A cartografia expandida da psique que inclui os domínios perinatal e transpessoal fornece uma explicação natural para a intensidade e conteúdo de tais estado extremos.
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Para muitas pessoas, o primeiro encontro com as dimensões sagradas da existência ocorre no contexto do processo de morte e renascimento, quando as experiências de etapas diferentes do nascimento são acompanhadas de visões e cenas do domínio arquetípico do inconsciente colectivo. No entanto, a ligação completa ao reino espiritual estabelece-se quando o processo se desloca para o nível transpessoal da psique. Quando isso acontece, várias experiências espirituais aparecem na sua forma pura, independentemente dos elementos fetais.
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Estados holotrópicos de consciência podem também proporcionar revelações profundas sobre a cosmovisão das culturas que acreditam que o cosmos é povoado por seres mitológicos e que é governado por várias divindades beatíficas e iradas. Nestes estados, podemos conseguir acesso experiencial directo ao mundo arquetípico de deuses, demónios, heróis lendários, entidades sobre-humanas e espíritos guias. Podemos visitar o domínio de realidades mitológicas, paisagens fantásticas e residências do além.
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