O termo tem história recente, tomando sua acepção moderna a partir do filósofo Edmund Husserl. A fenomenologia é uma espécie de método que faz a mediação entre o sujeito e o objeto ou, dizendo de outro modo, entre o eu e a coisa. A partir da perspectiva que se deseja emprestar à realidade, ou à coisa, se podem distinguir três grandes linhas na fenomenologia: a transcendental, husserliana, a existencial, a partir de Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty, e a hermenêutica, cujos representantes maiores seriam Hans George Gadamer e Martin Heidegger.
No artigo “Da ficção”, publicado em 1966, Vilém Flusser explica a fenomenologia a partir de uma mesa simples, entendendo que ela pode ser percebida como uma ficção chamada “realidade dos sentidos”. Sob outra perspectiva, a mesa seria um campo eletromagnético e gravitacional praticamente vazio. Essa perspectiva é igualmente fictícia, ou seja, formula uma hipótese sobre o objeto a partir da chamada “realidade da ciência exata”. Do ponto de vista da Física é a mesa aparentemente sólida, mas de fato oca, e do ponto de vista dos sentidos é a mesa aparentemente oca, mas de fato sólida, nos termos da vivência imediata. Na verdade, não é produtivo perguntar qual destes pontos de vista é mais “verdadeiro”.
Se fosse possível eliminar os pontos de vista possíveis, deixando-os entre parênteses para contemplar a essência da mesa, restaria, para a fenomenologia, apenas o que vai chamar de “pura intencionalidade”. A rigor, a mesa seria a soma dos pontos de vista que sobre ela incidem, a soma das ficções que a modelam, ou quiçá o ponto de coincidência de ficções diferentes. Para Edmund Husserl, conhecido como o fundador da fenomenologia moderna, todos os fenômenos, da mesa mais simples ao evento mais complexo, são reais à medida em que compreendidos pela consciência. O conhecimento da própria consciência é o único conhecimento possível: a intencionalidade investida sobre os objetos os constitui. O algo de que a consciência tem consciência, o objeto do pensamento, Husserl chamaria noema, enquanto que a visada da consciência, o ato mesmo de pensar, ele chamaria noese, mas os dois termos são inseparáveis, se ninguém pensa sobre o nada. Se a consciência é sempre consciência de alguma coisa, então a consciência é intencionalidade e não há noese sem noema, cogito sem cogitatum, amo sem amatum e assim por diante: encontramo-nos entrelaçados com o mundo. A intencionalidade é um objetivo mas também uma doação de sentido; o isso – o mundo – integra a consciência.
Para não ficar entalado no solipsismo, Husserl recorre à intersubjetividade transcendental, supondo que as essências e as significações de um sujeito podem, por analogia, ter aspecto parecido com as dos demais. O outro é para si próprio um Eu; sua unidade não se encontra na minha percepção, mas nele próprio. O outro é experimentado por mim como estranho porque é ele mesmo, tanto quanto eu, fonte de sentido e de intencionalidade. Paul Ricœur dirá que há fenomenologia quando se trata como problema autônomo a maneira de aparecer das coisas, ou seja, quando se coloca entre parênteses a questão do ser. Uma fenomenologia é diluída quando não percebe, e portanto não tematiza, o ato de nascimento que faz surgir o aparecer. Em contrapartida, a fenomenologia será rigorosa se e somente se a dissociação dramática entre o ser e o aparecer for o objeto da sua reflexão, o que implica pôr em questão o ponto de vista, vale dizer: o filósofo.
Como Descartes, Husserl perseguia a certeza da filosofia, para tanto pretendendo que o seu pensamento não nascesse das divergências mas das coisas e dos problemas. A fenomenologia estabelece como postulado que o fenômeno seja lastrado de pensamento, isto é, que seja logos ao mesmo tempo que fenômeno. Um menino desenhando sem compasso poderá dizer que a forma oval que traçou em seu caderno é um círculo; sabemos que é apenas uma tentativa de círculo, mas sabemos também, junto com o menino, que é, sim, um círculo. A percepção do fenômeno se distingue da intuição da essência que se atribui ao fato materialmente percebido, o que permite identificar aquela forma como um círculo para além da sua expressão concreta. Platão já chamava eidos à intuição da essência condicionada à percepção do sensível: assim como há muitos homens e nenhum é O Homem, da mesma maneira há muitos círculos desenhados em muitos cadernos e nenhum será O Círculo, mas as essências deste e daquele estarão existindo, sim, como armadura inteligível do ser. O que Husserl não concorda é em situar tais essências num mundo inteligível de que o mundo sensível seria apenas derivado menor. As essências das coisas residem na consciência, sem com isso reduzirem-se a fenômenos psíquicos. Escapa desse beco psicológico recorrendo à noção de intencionalidade: os fenômenos não nos aparecem, são vividos.
É preciso mostrar que as leis lógicas são “puras”, isto é, construídas a priori. Da mesma maneira, os atos do pensamento, como a abstração, o juízo, a inferência, também não são atos empíricos, dos quais só se pode saber a posteriori, mas sim atos de natureza intencional. Para limpar o reconhecimento da intencionalidade das limitações do ponto de vista e escapar do escolho do relativismo, cumpre adotar a atitude de suspensão do mundo natural. Suspender o mundo natural equivale a colocar momentaneamente entre parênteses a crença, primeiro, de que o mundo natural existe, segundo, de que as proposições decorrentes dessa crença sejam verdadeiras. Essa suspensão se realiza através da epoché [conferir]. A epoché é o eixo da redução fenomenológica de Husserl, pela qual se suspende o juízo acerca do conteúdo doutrinal de toda filosofia. A epoché, porém, não é uma manifestação cética, uma vez que não nega a realidade do mundo natural. Husserl afirma que não há sujeito mais realista do que o fenomenólogo: tem certeza de que é um homem e tem certeza de que vive em um mundo real, do qual tem experiência efetiva – as evidências indubitáveis é que repõem a experiência como o maior dos enigmas.
O procedimento suspensivo da epoché implica a redução fenomenológica. Pela redução, deixamos de dirigir o nosso olhar para os objetos tomados em si mesmos em seu ser inacessível (a mesa, a árvore, a cidade) para dirigir a atenção para os atos da consciência que nos permitem chegar até eles (nossa visão da mesa, nossa lembrança da árvore, nossa imaginação da cidade). A redução fenomenológica é uma conversão do olhar que nos permite chegar ao objeto vivendo-o segundo seu sentido para nós, segundo o valor que lhe atribuímos e sobre o qual não negamos nossa responsabilidade. A redução, articulada à suspensão, é antes um processo de encaminhamento, um método, do que um conceito ou parte de um sistema teórico. É preciso mesmo que se rejeite a imposição de qualquer sistema; tamanha seria a riqueza dos fenômenos que se afiguraria falta de retidão e lealdade anteceder a humilde interrogação dos fenômenos de um sistema que a priori controlasse a interrogação para melhor submeter o objeto da atenção e, portanto, do controle. Nicolai Hartmann chegou a afirmar: “nada pode ser de proveito senão a tendência de abeirar-se dos fenômenos de tão perto quanto possível, para aprender a vê-los na sua multiplicidade e para só depois retornar de novo às questões gerais”.
Entretanto, contrariamente à dúvida cartesiana que a inspira, a redução husserliana não é provisória, negando o mundo para depois reconquistá-lo e à certeza; ela procura instalar-se num regime crítico de pensamento que é seu próprio fim, desejando um olhar despolarizado dos objetos que os libere da reificação ao percebê-los como unidade de sentido – como noema. O que se quer é converter todo fato bruto em essência vivida, abrindo campo para a epoché, ou seja, para aquela espécie de eclusa reflexiva que bloqueia a atitude ingênua e permite, ao olhar, olhar o próprio olhar.
De diferentes modos os nossos padrões mentais se modificaram depois do advento “Husserl”, porque a fenomenologia altera a própria concepção de conhecimento e, em conseqüência, a epistemologia moderna. O conhecimento, nos termos husserlianos, é uma relação concreta da qual o conhecedor e o que se conhece são, estes sim, extrapolações abstratas. O conhecimento é, ao contrário da impressão usual, um dos fatos concretos que fundam o mundo no qual vivemos, nossa Lebenswelt. O sujeito é uma hipótese, como já o demonstraram Nietzsche e Freud – ainda que hipótese indispensável. Da mesma forma, o objeto é outra hipótese – ainda que, novamente, hipótese indispensável. “Eu conheço esta mesa” denota uma intenção concreta e confirma que esse conhecimento, provavelmente compartilhado por muitos sujeitos, é ele mesmo concreto – no entanto, o “eu” e a “mesa” permanecem abstrações, ainda que necessárias.
Se sinto dor no estômago, apenas a dor é um fato concreto; “eu” e “estômago” não são mais do que extrapolações abstratas. Da mesma forma, se considero o nazismo como um mal, apenas o juízo de valor “mal” é um fato concreto; “eu” e “nazismo” são igualmente extrapolações abstratas oriundas daquela concretude. Como todas as nossas relações, estas sim concretas, implicam a existência simultânea da “coisa” e do “outro”, nada pode ser conhecido se não for experimentado e avaliado, assim como nada pode ser experimentado se não for conhecido e avaliado e nada pode ser avaliado se não for também experimentado e conhecido. A divisão tradicional das disciplinas em Ciência, Política e Arte (respectivamente, conhecimento, valor e experiência) é uma abstração da concretude derivada do mundo da vida, da Lebenswelt formada por relações e conexões intencionais. Conseqüentemente, a eterna querela metafísica entre o idealismo e o realismo se esfarela. A atitude científica se altera, se o que se mostra concreto em termos científicos é precisamente a co-implicação entre conhecimento, valor e experiência, isto é, a pura intencionalidade – a ciência passa a assumir que empresta o sentido (Sinngebung) ao mundo em que vivemos. Logo, da mesma forma que a ciência se dá conta da sua responsabilidade estética, também a arte se dá conta de que ela é uma fonte de conhecimento.
Nós nos apegaríamos à fé na realidade de mesas e mentes porque a concretude do mundo vivido é coberta por grossas camadas de preconceito que nos fazem acreditar em objetos e em sujeitos. É necessário remover ou reduzir essas camadas. Os objetos devem ser libertos para revelar o que são: nós abstratos de intenções. Esse é o processo conhecido como redução fenomenológica (isto é, do fenômeno). Da mesma forma que os objetos, o “eu” deve ser liberto para conhecer o que realmente “sou”: um outro nó abstrato do qual as intenções emanam – essa seria a redução eidética (isto é, do ser). Os dois movimentos tornam possível e consciente a Sinngebung (isto é, a doação do sentido), o que por sua aproxima decisivamente a fenomenologia da literatura e sua teoria.
Gestaut FRITZ PERLS
Alguns aspectos da história e da fundamentação da Gestalt-terapia
Ênio Brito Pinto
Minha intenção é apresentar um breve panorama da história da Gestalt-terapia. Talvez mais do que um panorama, um breve retrato. Um retrato bastante reduzido, mas que, espero, possa dar uma idéia suficientemente abrangente da filosofia e da técnica da Gestalt-terapia.
A Gestalt-terapia é uma teoria de personalidade e uma teoria de psicoterapia que vem sendo continuamente desenvolvida por autores contemporâneos. Faz parte da chamada terceira força em Psicologia, ou corrente humanista, que emergiu como reação às visões psicanalítica e comportamentalista do ser humano.
São alguns conceitos básicos da Gestalt-terapia: o ser humano é um ser de relação (relação consigo mesmo, com o mundo, com os outros); totalidade e integração (a pessoa como uma unidade psique-corpo-espírito); o ser humano como unidade indivíduo-meio (o ser humano está constantemente interagindo com limites sociais e ambientais); unidade de passado, presente e futuro (o aqui-e-agora é o tempo e o lugar onde as modificações podem ocorrer); auto-regulação (o ser humano é um todo unificado que se auto-regula). Em suma, a teoria da Gestalt-terapia é uma teoria de processos, ou seja: o que importa é o relacionamento entre eventos. A visão do gestalt-terapeuta é uma visão voltada para a dinâmica que acontece em determinado momento da vida de uma pessoa. Assim, entendem-se as estruturas da personalidade como funções ou conjuntos de funções, não como entidades. São mais importantes o ‘como’ e o ‘para que’ do que o ‘o que’ ou o ‘porquê’.
A premissa da qual parto é a de que toda abordagem em psicologia apresenta, ainda que apenas implicitamente, uma teoria do ser humano. A Gestalt-terapia pretende ser uma síntese criativa e coerente, em constante transformação, de algumas correntes filosóficas ou psicoterápicas: o humanismo, o existencialismo, a psicologia fenomenológica, a psicanálise freudiana, os trabalhos de Reich, a psicologia da Gestalt, a teoria organísmica de Goldstein, a teoria de Lewin, alguns aspectos do taoísmo e do budismo. É desse base de influências que se pode depreender a visão de ser humano da abordagem gestáltica.
O principal criador da Gestalt-terapia foi Frederick Salomon Perls, o Fritz Perls, como ficou conhecido. Fritz nasceu em Berlim, em 1893, filho de pais judeus.
Em 1920, aos 27 anos, portanto, graduou-se em Medicina, passando a trabalhar como neuropsiquiatra.
Em 1926, em Frankfurt, trabalhou com o neuropsiquiatra Kurt Goldstein e com sua assistente, Laura Posner, mais tarde co-fundadora da Gestalt-terapia, assim como Paul Goodman e Ralph Hefferline. Perls e Laura casaram-se algum tempo depois de seu trabalho com Goldstein.
Goldstein é um dos expoentes da teoria organísmica, uma das principais influência exercidas sobre Perls e, por extensão, sobre a Gestalt-terapia. Vem daí a idéia central na Gestalt-terapia de se considerar o indivíduo como um todo, uma entidade biopsicossocioespiritual.
Do trabalho de Goldstein, imensamente importante para a Gestalt-terapia, pode-se deduzir que “o ser humano é regulado e tende ao equilíbrio. Realiza-se intensamente atendendo às suas necessidades. Para tanto, compõe-se com o ambiente e/ou redistribui intensamente sua energia pelo organismo. É este o homem uno e integrado.” (Martins, 1995, p. 57) Para Ribeiro (1999, p. 118 e ss), os processos básicos, em termos de dinâmica específica de comportamento, segundo Goldstein, são 3: 1) Processo de equalização ou centragem do organismo;2) Auto-realização; 3) Pôr-se em acordo com o meio ambiente.[1]
Uma vez que já vimos, ainda que muito superficialmente, as idéias básicas de Goldstein que influenciam a Gestalt-terapia, vamos dar uma olhada em outra das mais importantes bases da Gestalt-terapia: assim como muitas das abordagens em psicoterapia, a Gestalt-terapia é, de certa forma, filha da Psicanálise. Fritz Perls e sua mulher, Laura, eram psicanalistas quando lançaram as bases da Gestalt-terapia. Durante este tempo de trabalho, fizeram um trajeto desde a Alemanha (de onde fugiram do terror nazista) até os EUA, onde finalmente se radicaram, passando pela Holanda e pela África do Sul, onde residiram e trabalharam por alguns anos, até fugirem do fascismo representado pelo “apartheid”, chegando finalmente aos EUA. As influências da Psicanálise sobre a Gestalt-terapia são um dos pontos mais debatidos no interior da abordagem gestáltica, havendo mesmo teóricos que dizem que ela se dá muito mais pelo que não fazer que pelo que fazer em um trabalho psicoterapêutico. Voltarei mais adiante a este tema.
De Friedlander, Perls aproveita o conceito de indiferença criativa e a maneira de ver as polaridades, ou seja, o aspecto da qualidade polar da vida humana: a polaridade da personalidade é um dos pilares da Gestalt-terapia. De Jan Smuts, Fritz traz importantes reflexões sobre o holismo. Com relação ao trabalho com os sonhos, há influência de Jung, que via os sonhos mais como expressões pessoais criativas do que como disfarces inconscientes de experiências problemáticas ou apenas motivados por realizações de desejos. Em Gestalt-terapia, os sonhos são entendidos também em termos de situações inacabadas que clamam por satisfação e finalização. Este conceito (situação inacabada) nos leva a outra influência recebida pela Gestalt-terapia: a teoria da aprendizagem da Gestalt, desenvolvida por Wertheimer, Köhler e Koffka, na Alemanha dos anos vinte. Influência tão marcante que acabou por determinar o nome da teoria que Perls criaria.
A fundamentação básica da Psicologia da Gestalt é a de que a percepção depende da totalidade das condições estimulantes, ou seja, depende do campo total (indivíduo-meio), quer dizer, depende de características do estímulo e da organização neurológica e perceptiva da pessoa.
A palavra “Gestalt”, derivada da raiz germânica “Gestalten”, significa todo ou configuração. Na Psicologia da Gestalt, gestalten são totalidades significantes da experiência. Para a Psicologia da Gestalt o todo é diferente da soma de suas partes. Há uma condição inata de necessidade humana de organização e de integridade da experiência perceptual, da qual podemos depreender que uma pessoa não pode prosseguir seu processo de crescimento até antes de haver completado qualquer coisa que experiencie como incompleta em sua vida.
O conceito da Psicologia da Gestalt de figura e fundo é básico para a Gestalt-terapia. Tal conceito permite ao ser percipiente organizar suas percepções numa unidade dinâmica a mais vigorosa possível. Os conceitos, oriundos da Psicologia da Gestalt, principalmente o que se refere a figura e fundo, são importante base para as noções de saúde e de doença da Gestalt-terapia. Além disso, há que se dar atenção a uma série de princípios que regem a percepção, segundo os teóricos da Psicologia da Gestalt: proximidade, similaridade, direção, disposição objetiva, destino comum e pregnância. Também como conceito básico importante é o que trata do aqui e agora em termos de percepção : a experiência da percepção aqui e agora tem mais influência na percepção de um objeto ou de uma forma que a experiência passada com essa mesma figura. Além disso,
subjacente a estes e a outros conceitos oriundos da Psicologia da Gestalt está a diferença entre a realidade psíquica (o que eu percebo) e a realidade objetiva (o mundo das coisas) e a impossibilidade de compreender o homem sem uma visão holística do mesmo, que agrupe numa Gestalt (numa configuração) as partes deste homem bem como sua relação com os outros homens e com a natureza. (Martins, 1995, p. 55)
Outra influência colhida pelo casal Perls veio de Adler, cujas concepções “do estilo de vida e do eu criador apoiaram a participação única e ativa de cada indivíduo que - no curso de sua evolução pessoal - entalha a sua natureza específica. (...) Adler relembrou aos psicoterapeutas a importância da superfície da existência. Para a Gestalt-terapia, a superfície da existência é o plano do foco preordenado, a própria essência do homem psicológico. É nesta superfície que existe a consciência, dando à vida sua orientação e significado. Vem de Adler a influência para que, em Gestalt-terapia, acreditemos “que o homem cria a si mesmo”. A maior energia para a realização deste esforço prometeico provém de sua consciência e da aceitação de si mesmo tal qual é.” (Ribeiro, 1985, p. 21)
A orientação humanista da Gestalt-terapia se deve a algumas influências sofridas pelo casal Perls, notadamente de Otto Rank, que acreditava que a primeira luta humana é aquela pela individuação pessoal, o que se tornou também uma das preocupações centrais da Gestalt-terapia. Esta luta se dá através dos esforços que a pessoa faz para integrar seus medos polares de separação e de união, ou seja, a eterna luta humana entre autonomia e heteronomia. Se nos separamos demais, corremos o risco da perda da relação com o outro; se nos unimos demais, o risco é o da perda da individuação.
A idéia da resistência vista como criativa e como facilitadora de uma nova organização pessoal também advém de Rank e é capital na Gestalt-terapia. A resistência não deve ser combatida, mas sim deve ser trazida à consciência do cliente e respeitada como um limite do seu agora.
Outra base importante para a Gestalt-terapia é a filosofia existencial, principalmente através de Heidegger, Martin Buber, Binswanger, Rollo May e Merleau-Ponty.
O ser humano como um ser em relação é uma das contribuições que o movimento existencialista do pós-guerra trouxe à Gestalt-terapia. Além desta, podemos listar outras contribuições dos existencialistas: experiência; autenticidade; confrontação; ação viva e presente.
Para a Gestalt-terapia, isto implicou na ênfase na “singularidade, particularidade, e concretude do homem diante de suas relações e de sua responsabilidade frente a seus projetos e às suas escolhas.” (Barbalho, 1995, p. 2) Metodologicamente, a implicação diz respeito à fundamentação da terapia no relacionamento dialógico e na fenomenologia.
Tratando da influência de Buber no trabalho gestáltico, Cardella (2002, p. 36 e ss) argumenta que Buber acredita que a civilização moderna, ao não valorizar os aspectos relacionais da vida, ampliou o espaço para o narcisismo e para o isolamento do ser humano. Esta relação, o inter-humano, está presente no e dando sentido ao diálogo, entendendo aqui diálogo não somente no que se refere ao discurso, mas ao fundamento relacional da existência humana. Este diálogo acontece “na esfera do ‘entre’, mediante a vivência de duas polaridades, EU-TU e EU-ISSO, as duas atitudes fundamentais do ser humano para relacionar-se com os outros e com o mundo.” (Cardella, 2002, p. 37) Para Buber (1979, passim), o ser humano não pode viver sem relações EU-ISSO, mas não é humano aquele que só vive relações EU-ISSO. Diz o filósofo que a realização do EU se dá na relação com o TU, uma relação de seres em sua totalidade. Assim, a relação EU-TU valoriza o outro na sua alteridade, de modo que a outra pessoa é um fim em si mesma. Na relação EU-ISSO, a outra pessoa é considerada um objeto a partir do qual se atinge um fim.
O encontro EU-TU não pode ser forçado, de maneira que só podemos nos colocar disponíveis para ele; este encontro é algo que acontece, é quase que uma graça, se me é permitido usar de um termo religioso. A existência sadia pode ser caracterizada, dentro deste ponto de vista, pela possibilidade da vivência da dualidade EU-TU e EU-ISSO, uma alternância entre aproximação (relação) e separação, um ritmo de ir e vir, uma alternância de contato e retraimento num compasso sempre muito pessoal.
Ao valorizar o aspecto relacional da existência humana, a Gestalt-terapia se mostra com uma atitude terapêutica e uma visão de ser humano fundamentada na abordagem dialógica, a qual valoriza o ‘entre’, “o verdadeiro lugar e o berço do que acontece entre os homens.” (Buber, cit. em Hycner, 1997, p. 29) Segundo Hycner (1997, p. 29),
aquilo que nos une como seres humanos não é, necessariamente, o visível e o palpável, mas, sim, a dimensão invisível e impalpável ‘entre’ nós. É o espírito humano que permeia qualquer interação nossa. É o ‘fundo numinoso’ que nos envolve e interpenetra. A partir dele emergem nossa singularidade e individualidade, tornando-se figura. É a fonte da cura.
Data de 1927, a mudança de Fritz para Viena e o começo de seu treinamento em Psicanálise. Fritz foi analisando de Wilhelm Reich; teve também Karen Horney como supervisora e terapeuta. Sem dúvida, uma das maiores influências exercidas sobre os Perls veio de Reich. O corpo, os gestos, o olhar, a entonação da voz, passam a fazer parte da terapia. Além disto, há uma preocupação não só com a estrutura da fala, mas também com a forma da fala. Reich reformulou o conceito de libido, definindo-a como excitação, o que torna adequada para explicar a atividade presente no indivíduo, sem ter que apelar para especulações sobre os instintos ou sobre a infância. Através do conceito de couraça muscular do caráter, Reich fez com que “a terapia se devotasse ao afrouxamento desta rigidez corporal restritiva, de forma a liberar a excitação para o comportamento natural que o indivíduo havia enterrado. (...) Esta foi uma perspectiva surpreendentemente simples do homem, que iluminou os aspectos básicos e simples do comportamento: a sensação, o orgasmo, e a riqueza da expressão imediata e não distorcida. (...) A tendência de Reich de ver com simplicidade as ações simples levou a uma fenomenologia mais vigorosa.” (Polster e Polster, 1979, p. 275/276)
Moreno e o Psicodrama, com o conceito de que é mais provável fazer-se descobertas participando-se de uma experiência do que falando sobre ela, é uma de outra das influências recebidas pela Gestalt-terapia.
Em 1942, Fritz escreveu o livro “Ego, Fome e Agressão”, no qual critica a teoria psicanalítica com base em pesquisas sobre percepção e motivação. Neste livro Fritz lança uma importante discordância teórica com relação à psicanálise: a idéia de que a base da agressão e do sadismo está na fase oral e não na fase anal do desenvolvimento infantil. É também neste livro que Perls lança alguns conceitos básicos do que seria, mais tarde, a Gestalt-terapia: a realidade do aqui e agora, o organismo como totalidade, a unidade organismo/meio, a dominância da necessidade emergente e uma reflexão sobre o conceito de agressão, que é entendida como uma força biológica importante para o crescimento. Data de 1951 o lançamento de Gestalt Therapy – Excitement and Growth in Human Personality, escrito por Frederick Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline, livro no qual, pela primeira vez, foi utilizado o termo “Gestalt-terapia”, e que é o livro mais básico da Gestalt-terapia.
Em 1962, Perls entra em contato com o zen-budismo ao passar uns tempos em um mosteiro no Japão e aprende lá alguns conceitos que se incorporam à filosofia da Gestalt-terapia; dentre esses conceitos, quero aqui destacar três: permitir o fluir da experiência, ou seja, seguir o fluxo de awareness; a aceitação do que se é; e a possibilidade de se aprender a lidar com o vazio, o qual é fértil de possibilidades, uma vez que, não raro, é o momento que precede o ato criativo.
Fritz faleceu em 14 de março de 1970, no Canadá. Laura, em 1990, nos EUA. Deixaram como legado uma das mais importantes abordagens da Psicologia e da psicoterapia atual, uma abordagem em constante desenvolvimento e em constante luta por um mundo mais humano e mais simples.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
BARBALHO, M. C. M. Histórico da Gestalt-terapia. in Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia, Goiânia, 1995
CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. A Construção do Psicoterapeuta: Uma abordagem gestáltica. São Paulo: Summus, 2002
MARTINS, Antonio Elmo de Oliveira. A Concepção de Homem na Gestalt-terapia e suas implicações no processo psicoterápico. Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia, março/abril de 1995
PERLS, Frederick S. Ego, Fome e Agressão: Uma revisão da teoria e do método de Freud. São Paulo: Summus, 2002
PERLS, Frederick S., HEFFERLINE, Ralph e GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997
POLSTER, E. & Polster, M. Gestalt Terapia Integrada. Belo Horizonte, Unilivros, 1979
RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: Refazendo um Caminho. São Paulo, Summus, 1985
RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia de Curta Duração. São Paulo: Summus, 1999
EBP/2006
Ênio Brito Pinto
Minha intenção é apresentar um breve panorama da história da Gestalt-terapia. Talvez mais do que um panorama, um breve retrato. Um retrato bastante reduzido, mas que, espero, possa dar uma idéia suficientemente abrangente da filosofia e da técnica da Gestalt-terapia.
A Gestalt-terapia é uma teoria de personalidade e uma teoria de psicoterapia que vem sendo continuamente desenvolvida por autores contemporâneos. Faz parte da chamada terceira força em Psicologia, ou corrente humanista, que emergiu como reação às visões psicanalítica e comportamentalista do ser humano.
São alguns conceitos básicos da Gestalt-terapia: o ser humano é um ser de relação (relação consigo mesmo, com o mundo, com os outros); totalidade e integração (a pessoa como uma unidade psique-corpo-espírito); o ser humano como unidade indivíduo-meio (o ser humano está constantemente interagindo com limites sociais e ambientais); unidade de passado, presente e futuro (o aqui-e-agora é o tempo e o lugar onde as modificações podem ocorrer); auto-regulação (o ser humano é um todo unificado que se auto-regula). Em suma, a teoria da Gestalt-terapia é uma teoria de processos, ou seja: o que importa é o relacionamento entre eventos. A visão do gestalt-terapeuta é uma visão voltada para a dinâmica que acontece em determinado momento da vida de uma pessoa. Assim, entendem-se as estruturas da personalidade como funções ou conjuntos de funções, não como entidades. São mais importantes o ‘como’ e o ‘para que’ do que o ‘o que’ ou o ‘porquê’.
A premissa da qual parto é a de que toda abordagem em psicologia apresenta, ainda que apenas implicitamente, uma teoria do ser humano. A Gestalt-terapia pretende ser uma síntese criativa e coerente, em constante transformação, de algumas correntes filosóficas ou psicoterápicas: o humanismo, o existencialismo, a psicologia fenomenológica, a psicanálise freudiana, os trabalhos de Reich, a psicologia da Gestalt, a teoria organísmica de Goldstein, a teoria de Lewin, alguns aspectos do taoísmo e do budismo. É desse base de influências que se pode depreender a visão de ser humano da abordagem gestáltica.
O principal criador da Gestalt-terapia foi Frederick Salomon Perls, o Fritz Perls, como ficou conhecido. Fritz nasceu em Berlim, em 1893, filho de pais judeus.
Em 1920, aos 27 anos, portanto, graduou-se em Medicina, passando a trabalhar como neuropsiquiatra.
Em 1926, em Frankfurt, trabalhou com o neuropsiquiatra Kurt Goldstein e com sua assistente, Laura Posner, mais tarde co-fundadora da Gestalt-terapia, assim como Paul Goodman e Ralph Hefferline. Perls e Laura casaram-se algum tempo depois de seu trabalho com Goldstein.
Goldstein é um dos expoentes da teoria organísmica, uma das principais influência exercidas sobre Perls e, por extensão, sobre a Gestalt-terapia. Vem daí a idéia central na Gestalt-terapia de se considerar o indivíduo como um todo, uma entidade biopsicossocioespiritual.
Do trabalho de Goldstein, imensamente importante para a Gestalt-terapia, pode-se deduzir que “o ser humano é regulado e tende ao equilíbrio. Realiza-se intensamente atendendo às suas necessidades. Para tanto, compõe-se com o ambiente e/ou redistribui intensamente sua energia pelo organismo. É este o homem uno e integrado.” (Martins, 1995, p. 57) Para Ribeiro (1999, p. 118 e ss), os processos básicos, em termos de dinâmica específica de comportamento, segundo Goldstein, são 3: 1) Processo de equalização ou centragem do organismo;2) Auto-realização; 3) Pôr-se em acordo com o meio ambiente.[1]
Uma vez que já vimos, ainda que muito superficialmente, as idéias básicas de Goldstein que influenciam a Gestalt-terapia, vamos dar uma olhada em outra das mais importantes bases da Gestalt-terapia: assim como muitas das abordagens em psicoterapia, a Gestalt-terapia é, de certa forma, filha da Psicanálise. Fritz Perls e sua mulher, Laura, eram psicanalistas quando lançaram as bases da Gestalt-terapia. Durante este tempo de trabalho, fizeram um trajeto desde a Alemanha (de onde fugiram do terror nazista) até os EUA, onde finalmente se radicaram, passando pela Holanda e pela África do Sul, onde residiram e trabalharam por alguns anos, até fugirem do fascismo representado pelo “apartheid”, chegando finalmente aos EUA. As influências da Psicanálise sobre a Gestalt-terapia são um dos pontos mais debatidos no interior da abordagem gestáltica, havendo mesmo teóricos que dizem que ela se dá muito mais pelo que não fazer que pelo que fazer em um trabalho psicoterapêutico. Voltarei mais adiante a este tema.
De Friedlander, Perls aproveita o conceito de indiferença criativa e a maneira de ver as polaridades, ou seja, o aspecto da qualidade polar da vida humana: a polaridade da personalidade é um dos pilares da Gestalt-terapia. De Jan Smuts, Fritz traz importantes reflexões sobre o holismo. Com relação ao trabalho com os sonhos, há influência de Jung, que via os sonhos mais como expressões pessoais criativas do que como disfarces inconscientes de experiências problemáticas ou apenas motivados por realizações de desejos. Em Gestalt-terapia, os sonhos são entendidos também em termos de situações inacabadas que clamam por satisfação e finalização. Este conceito (situação inacabada) nos leva a outra influência recebida pela Gestalt-terapia: a teoria da aprendizagem da Gestalt, desenvolvida por Wertheimer, Köhler e Koffka, na Alemanha dos anos vinte. Influência tão marcante que acabou por determinar o nome da teoria que Perls criaria.
A fundamentação básica da Psicologia da Gestalt é a de que a percepção depende da totalidade das condições estimulantes, ou seja, depende do campo total (indivíduo-meio), quer dizer, depende de características do estímulo e da organização neurológica e perceptiva da pessoa.
A palavra “Gestalt”, derivada da raiz germânica “Gestalten”, significa todo ou configuração. Na Psicologia da Gestalt, gestalten são totalidades significantes da experiência. Para a Psicologia da Gestalt o todo é diferente da soma de suas partes. Há uma condição inata de necessidade humana de organização e de integridade da experiência perceptual, da qual podemos depreender que uma pessoa não pode prosseguir seu processo de crescimento até antes de haver completado qualquer coisa que experiencie como incompleta em sua vida.
O conceito da Psicologia da Gestalt de figura e fundo é básico para a Gestalt-terapia. Tal conceito permite ao ser percipiente organizar suas percepções numa unidade dinâmica a mais vigorosa possível. Os conceitos, oriundos da Psicologia da Gestalt, principalmente o que se refere a figura e fundo, são importante base para as noções de saúde e de doença da Gestalt-terapia. Além disso, há que se dar atenção a uma série de princípios que regem a percepção, segundo os teóricos da Psicologia da Gestalt: proximidade, similaridade, direção, disposição objetiva, destino comum e pregnância. Também como conceito básico importante é o que trata do aqui e agora em termos de percepção : a experiência da percepção aqui e agora tem mais influência na percepção de um objeto ou de uma forma que a experiência passada com essa mesma figura. Além disso,
subjacente a estes e a outros conceitos oriundos da Psicologia da Gestalt está a diferença entre a realidade psíquica (o que eu percebo) e a realidade objetiva (o mundo das coisas) e a impossibilidade de compreender o homem sem uma visão holística do mesmo, que agrupe numa Gestalt (numa configuração) as partes deste homem bem como sua relação com os outros homens e com a natureza. (Martins, 1995, p. 55)
Outra influência colhida pelo casal Perls veio de Adler, cujas concepções “do estilo de vida e do eu criador apoiaram a participação única e ativa de cada indivíduo que - no curso de sua evolução pessoal - entalha a sua natureza específica. (...) Adler relembrou aos psicoterapeutas a importância da superfície da existência. Para a Gestalt-terapia, a superfície da existência é o plano do foco preordenado, a própria essência do homem psicológico. É nesta superfície que existe a consciência, dando à vida sua orientação e significado. Vem de Adler a influência para que, em Gestalt-terapia, acreditemos “que o homem cria a si mesmo”. A maior energia para a realização deste esforço prometeico provém de sua consciência e da aceitação de si mesmo tal qual é.” (Ribeiro, 1985, p. 21)
A orientação humanista da Gestalt-terapia se deve a algumas influências sofridas pelo casal Perls, notadamente de Otto Rank, que acreditava que a primeira luta humana é aquela pela individuação pessoal, o que se tornou também uma das preocupações centrais da Gestalt-terapia. Esta luta se dá através dos esforços que a pessoa faz para integrar seus medos polares de separação e de união, ou seja, a eterna luta humana entre autonomia e heteronomia. Se nos separamos demais, corremos o risco da perda da relação com o outro; se nos unimos demais, o risco é o da perda da individuação.
A idéia da resistência vista como criativa e como facilitadora de uma nova organização pessoal também advém de Rank e é capital na Gestalt-terapia. A resistência não deve ser combatida, mas sim deve ser trazida à consciência do cliente e respeitada como um limite do seu agora.
Outra base importante para a Gestalt-terapia é a filosofia existencial, principalmente através de Heidegger, Martin Buber, Binswanger, Rollo May e Merleau-Ponty.
O ser humano como um ser em relação é uma das contribuições que o movimento existencialista do pós-guerra trouxe à Gestalt-terapia. Além desta, podemos listar outras contribuições dos existencialistas: experiência; autenticidade; confrontação; ação viva e presente.
Para a Gestalt-terapia, isto implicou na ênfase na “singularidade, particularidade, e concretude do homem diante de suas relações e de sua responsabilidade frente a seus projetos e às suas escolhas.” (Barbalho, 1995, p. 2) Metodologicamente, a implicação diz respeito à fundamentação da terapia no relacionamento dialógico e na fenomenologia.
Tratando da influência de Buber no trabalho gestáltico, Cardella (2002, p. 36 e ss) argumenta que Buber acredita que a civilização moderna, ao não valorizar os aspectos relacionais da vida, ampliou o espaço para o narcisismo e para o isolamento do ser humano. Esta relação, o inter-humano, está presente no e dando sentido ao diálogo, entendendo aqui diálogo não somente no que se refere ao discurso, mas ao fundamento relacional da existência humana. Este diálogo acontece “na esfera do ‘entre’, mediante a vivência de duas polaridades, EU-TU e EU-ISSO, as duas atitudes fundamentais do ser humano para relacionar-se com os outros e com o mundo.” (Cardella, 2002, p. 37) Para Buber (1979, passim), o ser humano não pode viver sem relações EU-ISSO, mas não é humano aquele que só vive relações EU-ISSO. Diz o filósofo que a realização do EU se dá na relação com o TU, uma relação de seres em sua totalidade. Assim, a relação EU-TU valoriza o outro na sua alteridade, de modo que a outra pessoa é um fim em si mesma. Na relação EU-ISSO, a outra pessoa é considerada um objeto a partir do qual se atinge um fim.
O encontro EU-TU não pode ser forçado, de maneira que só podemos nos colocar disponíveis para ele; este encontro é algo que acontece, é quase que uma graça, se me é permitido usar de um termo religioso. A existência sadia pode ser caracterizada, dentro deste ponto de vista, pela possibilidade da vivência da dualidade EU-TU e EU-ISSO, uma alternância entre aproximação (relação) e separação, um ritmo de ir e vir, uma alternância de contato e retraimento num compasso sempre muito pessoal.
Ao valorizar o aspecto relacional da existência humana, a Gestalt-terapia se mostra com uma atitude terapêutica e uma visão de ser humano fundamentada na abordagem dialógica, a qual valoriza o ‘entre’, “o verdadeiro lugar e o berço do que acontece entre os homens.” (Buber, cit. em Hycner, 1997, p. 29) Segundo Hycner (1997, p. 29),
aquilo que nos une como seres humanos não é, necessariamente, o visível e o palpável, mas, sim, a dimensão invisível e impalpável ‘entre’ nós. É o espírito humano que permeia qualquer interação nossa. É o ‘fundo numinoso’ que nos envolve e interpenetra. A partir dele emergem nossa singularidade e individualidade, tornando-se figura. É a fonte da cura.
Data de 1927, a mudança de Fritz para Viena e o começo de seu treinamento em Psicanálise. Fritz foi analisando de Wilhelm Reich; teve também Karen Horney como supervisora e terapeuta. Sem dúvida, uma das maiores influências exercidas sobre os Perls veio de Reich. O corpo, os gestos, o olhar, a entonação da voz, passam a fazer parte da terapia. Além disto, há uma preocupação não só com a estrutura da fala, mas também com a forma da fala. Reich reformulou o conceito de libido, definindo-a como excitação, o que torna adequada para explicar a atividade presente no indivíduo, sem ter que apelar para especulações sobre os instintos ou sobre a infância. Através do conceito de couraça muscular do caráter, Reich fez com que “a terapia se devotasse ao afrouxamento desta rigidez corporal restritiva, de forma a liberar a excitação para o comportamento natural que o indivíduo havia enterrado. (...) Esta foi uma perspectiva surpreendentemente simples do homem, que iluminou os aspectos básicos e simples do comportamento: a sensação, o orgasmo, e a riqueza da expressão imediata e não distorcida. (...) A tendência de Reich de ver com simplicidade as ações simples levou a uma fenomenologia mais vigorosa.” (Polster e Polster, 1979, p. 275/276)
Moreno e o Psicodrama, com o conceito de que é mais provável fazer-se descobertas participando-se de uma experiência do que falando sobre ela, é uma de outra das influências recebidas pela Gestalt-terapia.
Em 1942, Fritz escreveu o livro “Ego, Fome e Agressão”, no qual critica a teoria psicanalítica com base em pesquisas sobre percepção e motivação. Neste livro Fritz lança uma importante discordância teórica com relação à psicanálise: a idéia de que a base da agressão e do sadismo está na fase oral e não na fase anal do desenvolvimento infantil. É também neste livro que Perls lança alguns conceitos básicos do que seria, mais tarde, a Gestalt-terapia: a realidade do aqui e agora, o organismo como totalidade, a unidade organismo/meio, a dominância da necessidade emergente e uma reflexão sobre o conceito de agressão, que é entendida como uma força biológica importante para o crescimento. Data de 1951 o lançamento de Gestalt Therapy – Excitement and Growth in Human Personality, escrito por Frederick Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline, livro no qual, pela primeira vez, foi utilizado o termo “Gestalt-terapia”, e que é o livro mais básico da Gestalt-terapia.
Em 1962, Perls entra em contato com o zen-budismo ao passar uns tempos em um mosteiro no Japão e aprende lá alguns conceitos que se incorporam à filosofia da Gestalt-terapia; dentre esses conceitos, quero aqui destacar três: permitir o fluir da experiência, ou seja, seguir o fluxo de awareness; a aceitação do que se é; e a possibilidade de se aprender a lidar com o vazio, o qual é fértil de possibilidades, uma vez que, não raro, é o momento que precede o ato criativo.
Fritz faleceu em 14 de março de 1970, no Canadá. Laura, em 1990, nos EUA. Deixaram como legado uma das mais importantes abordagens da Psicologia e da psicoterapia atual, uma abordagem em constante desenvolvimento e em constante luta por um mundo mais humano e mais simples.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
BARBALHO, M. C. M. Histórico da Gestalt-terapia. in Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia, Goiânia, 1995
CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. A Construção do Psicoterapeuta: Uma abordagem gestáltica. São Paulo: Summus, 2002
MARTINS, Antonio Elmo de Oliveira. A Concepção de Homem na Gestalt-terapia e suas implicações no processo psicoterápico. Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia, março/abril de 1995
PERLS, Frederick S. Ego, Fome e Agressão: Uma revisão da teoria e do método de Freud. São Paulo: Summus, 2002
PERLS, Frederick S., HEFFERLINE, Ralph e GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997
POLSTER, E. & Polster, M. Gestalt Terapia Integrada. Belo Horizonte, Unilivros, 1979
RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: Refazendo um Caminho. São Paulo, Summus, 1985
RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia de Curta Duração. São Paulo: Summus, 1999
EBP/2006
Gestaut Terapia
http://www.youtube.com/watch?v=3QVEwpVxUKE&feature=PlayList&p=DCAF85F4251EEDA0&playnext=1&playnext_from=PL&index=19
Fritz Perls (1893-1970)
Friedrich Solomon "Fritz" Perls e sua esposa, Laura, foram os criadores da terapia Gestalt. Perls foi treinado como psicanalista freudiano e, depois foi influenciado por Wilhelm Reich antes de desenvolver suas próprias idéias e redigir a psicologia Gestalt. Seus escritos incluem Ego, Hunger and Aggression (1947), que foi compilado e editado por John O. Stevens (também conhecido como Steve Andreas, que mais tarde se tornou um conhecido escritor, trainer e desenvolvedor de PNL). O livro Eyewitness to Therapy (1973), editado por Richard Bandler, um dos criadores da PNL, foi compilado a partir das anotações de Perls.
Perls foi um dos três grandes terapeutas modelados por Bandler e Grinder na criação da PNL. A ênfase da PNL na experiência sensorial, pistas não verbais, o reconhecimento da incongruência, marcação espacial, trabalho com partes e polaridades, e o foco nas perguntas 'como', tudo isso têm suas raízes no trabalho de Perls. De fato, muito do Metamodelo foi derivado da modelagem dos padrões das perguntas feitas por Perls durante as sessões de terapia.
Texto traduzido e adaptado da Encyclopedia of Systemic NLP and New Code de Robert Dilts e Judith DeLozier.
Livros:
Fritz Perls - Abordagem Gestaltica e Testemunha Ocular da Terapia
John O. Stevens - Tornar-se Presente - Summus - Awareness: exploring, experimenting, experiencing
www.golfinho.com.br
Fritz Perls (1893-1970)
Friedrich Solomon "Fritz" Perls e sua esposa, Laura, foram os criadores da terapia Gestalt. Perls foi treinado como psicanalista freudiano e, depois foi influenciado por Wilhelm Reich antes de desenvolver suas próprias idéias e redigir a psicologia Gestalt. Seus escritos incluem Ego, Hunger and Aggression (1947), que foi compilado e editado por John O. Stevens (também conhecido como Steve Andreas, que mais tarde se tornou um conhecido escritor, trainer e desenvolvedor de PNL). O livro Eyewitness to Therapy (1973), editado por Richard Bandler, um dos criadores da PNL, foi compilado a partir das anotações de Perls.
Perls foi um dos três grandes terapeutas modelados por Bandler e Grinder na criação da PNL. A ênfase da PNL na experiência sensorial, pistas não verbais, o reconhecimento da incongruência, marcação espacial, trabalho com partes e polaridades, e o foco nas perguntas 'como', tudo isso têm suas raízes no trabalho de Perls. De fato, muito do Metamodelo foi derivado da modelagem dos padrões das perguntas feitas por Perls durante as sessões de terapia.
Texto traduzido e adaptado da Encyclopedia of Systemic NLP and New Code de Robert Dilts e Judith DeLozier.
Livros:
Fritz Perls - Abordagem Gestaltica e Testemunha Ocular da Terapia
John O. Stevens - Tornar-se Presente - Summus - Awareness: exploring, experimenting, experiencing
www.golfinho.com.br
Assinar:
Postagens (Atom)